Esta é uma reprodução de conteúdo original publicado na Revista Pluriverso.
Cartas encíclicas são documentos oficiais da maior autoridade da Igreja Católica, o Papa. Elas são publicadas desde a primeira metade do século XVIII e dada a importância dessa religião no Ocidente tais publicações costumam gerar grande impacto nessa sociedade. As cartas servem para orientar os fiéis sobre questões de fé, moral e doutrina, e também para expressar o posicionamento da Igreja diante dos grandes desafios globais e históricos.
Um exemplo foi a Carta encíclica Rerum Novarum, publicada pelo Papa Leão XIII em 1891, e que teve um impacto histórico revolucionário, ao mudar a forma como a Igreja católica se posicionava perante a sociedade. Ela passa a reagir às profundas mudanças e abusos da revolução industrial, servindo como marco fundador da Doutrina social da Igreja.
Mas a nossa matéria não era sobre IA, tecnologia e poder? Sim, mas calma, que a gente chega lá rapidinho.
Acontece que, em maio de 2026, o Papa Leão XIV publicou a Carta Encíclica Magnifica Humanitas na qual lança um alerta histórico sobre a nova escravidão digital e o futuro da humanidade. E é claro, para entender a importância desse debate na nossa vida, você não precisa ser católico.
A Carta encíclica é inteiramente dedicada à inteligência artificial (IA), desafiando diretamente o Vale do Silício. Com Magnifica Humanitas, o líder da Igreja Católica não apenas pede regulação, mas convoca a humanidade a “desarmar” uma tecnologia que, segundo ele, está sendo moldada por uma perigosa “cultura do poder”.
O documento, que traça paralelos entre a escravidão histórica e as novas cadeias digitais de exploração, ecoou em todo o mundo e provocou reações que vão do silêncio estratégico das big techs a alianças inesperadas. Neste alerta histórico o Papa foi capaz de exigir um posicionamento histórico da indústria.
I – Como desarmar a IA?
O ponto central da encíclica Magnifica Humanitas é, provocativa e cirúrgica: “desarmar”. O Papa Leão XIV não a utiliza de modo literal mas sim no sentido de libertar a tecnologia dessa lógica armamentista, de competição predatória e da obsessão pelo controle que, segundo o pontífice, passou a guiar o desenvolvimento da IA.
O objetivo desse desarme está justamente em retirar o caráter de arma (seja bélica, econômica ou psicológica) para devolvê-la ao campo do serviço ao bem comum.
A cultura do poder
O diagnóstico do Papa é bem claro: a revolução da IA está sendo conduzida por uma “cultura do poder” ao concentrar dados e capacidade de influência em um número muito pequeno de atores privados, concentrados em poucos países.
Será justamente essa concentração que irá enfraquecer os Estados, dificultar o escrutínio público e submeter o destino de bilhões a decisões tomadas em conselhos corporativos inacessíveis. A encíclica não cita nomes, mas é muito clara: o desenvolvimento acelerado e sem considerações éticas, sociais e democráticas será desastroso.
A guerra injusta
Leão XIV resgata ainda o conceito da “guerra justa”, elaborada por Santo Agostinho e aprimorada por muitos anos que passa a ser obsoleta diante de sistemas de IA capazes de tomar decisões de vida ou morte sem intervenção humana significativa. Segundo o Papa, ao dar às máquinas o poder de matar não apenas violamos a própria dignidade humana, mas também rompemos a possibilidade de contenção moral nos conflitos.
Ele chega a mencionar a guerra envolvendo o Irã e como já vimos exemplos perigosos de como essa desumanização dos campos de batalha. A crítica não se limita ao uso militar: a encíclica enxerga a mesma lógica de “armamento” na manipulação algorítmica da informação, ao transformar redes sociais em teatros de guerra cognitiva, e na exploração de dados pessoais como munição para o lucro.

A presença da Antrophic
A presença de Christopher Olah, cofundador da Anthropic, na cerimônia de lançamento da encíclica no Vaticano não foi por acaso. Sentado entre cardeais e diplomatas, Olah representou uma ala da indústria de tecnologia que acolheu o diagnóstico papal como uma validação de suas próprias bandeiras.
Em sua fala, Olah reforçou que nenhum laboratório de IA deveria operar apenas sob autorregulação. Para o cofundador da Anthropic, a supervisão externa, vinda de instituições democráticas e de “vozes morais que os incentivos financeiros não podem dobrar”, não é uma ameaça à inovação, mas uma condição para que ela sobreviva.
Ao abraçar o chamado papal, a Anthropic se posiciona como a empresa “responsável” em um mercado cada vez mais tensionado por escândalos de segurança e opacidade.
Contudo, o convite ao desarmamento vai além da regulação externa. Leão XIV insiste que é preciso desarmar também as mentalidades.
A solução para todos os problemas
A encíclica rejeita tanto a crença ingênua de que a IA resolverá todos os problemas da humanidade (o chamado “solucionismo tecnológico” em tradução livre) quanto o fatalismo apocalíptico que paralisa a ação.
A proposta é um caminho do meio onde o discernimento coletivo oriundo das comunidades, dos trabalhadores e das nações periféricas tenham voz e voto na mesa de decisão. O desarme da IA nesse caso envolve a renúncia ao poder de impor um futuro tecnológico verticalizado e abraçar a tarefa, bem mais exigente, de construí-lo em diálogo com a pluralidade da experiência humana.
A dúvida que a encíclica deixa é se o setor de tecnologia (e a sociedade como um todo) está realmente disposta a abrir mão das armas criadas.
II – A escravidão 3.0
O Papa Leão XIV fala ainda sobre as “novas formas de escravidão”. O desenvolvimento e a operação da inteligência artificial é sustentado por cadeias de exploração, indicando que o tal incrível futuro da humanidade está baseado no suor, lágrimas e por vezes na privação da liberdade de muitas de pessoas.
Ao pedir perdão em nome do papel da própria Igreja Católica na legitimação da escravidão ao longo dos séculos, reconhecendo a demora institucional em condená-la com a clareza que a dignidade humana exige o pontífice reforça as denúncias trazidas em seu texto.
Ao admitir que a teologia moral católica foi instrumentalizada para justificar a posse de seres humanos, Leão XIV estabelece um contraste brutal com as novas formas de exploração que se escondem por trás de interfaces bem desenhadas e algoritmos misteriosos.
Rotuladores invisíveis
O primeiro alvo dessa crítica é o trabalho invisível que treina e alimenta os sistemas de IA. O Papa descreve com precisão a realidade de milhões de pessoas, concentradas sobretudo no Sul Global, que passam horas rotulando imagens, classificando textos e moderando conteúdos violentos para que as máquinas aprendam a reconhecer padrões.
São trabalhadores que, em muitos casos, atuam sem qualquer vínculo formal, sem proteção social, sem pausas adequadas e submetidos a metas absurdas. O texto denuncia que, nesse modelo, a inteligência que consumimos como “artificial” é, na verdade, fruto de um esforço humano gigantesco mas apagado da narrativa da inovação.
Para Leão XIV, apagar o trabalhador é uma operação ideológica que repete a lógica da escravidão: torna-se cômodo não ver o rosto de quem sofre, desde que o produto final chegue polido às mãos do consumidor. O Papa chega a comparar essas condições de trabalho a formas contemporâneas de servidão, em que a necessidade econômica e a ausência de regulação internacional aprisionam corpos e mentes em ciclos de precariedade sem saída.
Minerais raros
A encíclica menciona minas em regiões da África e da América Latina, onde frequentemente se documentam trabalho infantil, coerção física e condições análogas à escravidão. Ao fazer essa conexão, Leão XIV acaba com a farsa de que a economia digital independe dos recursos finitos do planeta e das relações de exploração que marcam a geopolítica extrativista.
A inteligência artificial, lembra o pontífice, literalmente se alimenta de terra arrasada e de vidas submetidas a uma lógica colonial que nunca acabou só passou por um rebranding. Não se trata, para o Papa, de efeitos colaterais infelizes de um progresso inevitável, mas da manifestação direta da “cultura do poder” que orienta o desenvolvimento tecnológico.
A escravidão renasce, segundo o documento, sempre que a dignidade do outro é instrumentalizada em nome da eficiência, do lucro ou da conveniência. E a IA, longe de ser uma força neutra, está sendo utilizada para aprofundar e aperfeiçoar esses mecanismos, criando sistemas de vigilância sobre populações vulneráveis, otimizando a extração de riqueza das periferias e automatizando a exclusão.
A Igreja admite que, no passado, falhou ao se calar ou ao colaborar com um regime que coisificava seres humanos. A advertência implícita é que falhará novamente se não levantar a voz com a mesma clareza contra as escravidões do presente.
Um desconforto geral
A resposta de alguns setores já demonstrou o desconforto gerado pela encíclica: enquanto organizações de trabalhadores e ativistas de direitos humanos celebram o documento, o silêncio de gigantes como a Meta e a Amazon, apesar de terem feito lobby prévio junto ao Vaticano, foi interpretado como um sinal de que o recado atingiu alvos sensíveis demais para serem comentados publicamente.
III – Riscos e desafios imediatos
Segundo a encíclica existem três grandes ameaças interligadas: a manipulação da informação e a erosão democrática, a desumanização dos conflitos e o risco de a inteligência artificial se transformar em uma nova Torre de Babel.
A manipulação da opinião
O texto alerta que os sistemas de inteligência artificial, especialmente aqueles embarcados em plataformas de redes sociais e mecanismos de busca, estão sendo utilizados para manipular a opinião pública em escala industrial.
O Papa descreve um ecossistema informacional onde algoritmos projetados para maximizar engajamento acabam privilegiando conteúdos emocionalmente carregados, polarizadores e, frequentemente, falsos.
Essa dinâmica não seria um defeito acidental mas uma característica funcional de um modelo de negócios baseado na extração da atenção humana como mercadoria.
Ao fragmentar o espaço público em bolhas de realidade paralelas e ao corroer a confiança nas instituições que deveriam mediar o debate democrático (como a imprensa, a academia e o parlamentos) a IA torna-se uma ferramenta de erosão da própria democracia.
O documento adverte que sociedades que perdem a capacidade de distinguir coletivamente entre verdade e mentira tornam-se presas fáceis para o autoritarismo, seja ele exercido por governos, corporações ou uma aliança entre ambos.
Desumanizando conflitos armados
Retomando e aprofundando sua rejeição às armas autônomas letais, Leão XIV declara que a doutrina da “guerra justa” está definitivamente ultrapassada diante de sistemas capazes de decidir sobre a vida e a morte sem uma mediação moral genuinamente humana.
A encíclica faz uma crítica velada, mas inequívoca, aos conflitos contemporâneos, mencionando a guerra no Oriente Médio como um exemplo de como a tecnologia está acelerando ciclos de violência e reduzindo o espaço para a diplomacia.
O Papa adverte que, quando as decisões militares são delegadas a máquinas programadas para otimizar alvos e minimizar danos colaterais apenas em termos estatísticos, a própria noção de responsabilidade moral se dissolve.
O soldado, o comandante e o algoritmo fundem-se em uma cadeia de comando onde ninguém mais se sente verdadeiramente responsável pela morte do outro.
Essa desumanização, alerta o documento, não se restringe ao campo de batalha: ela contamina a cultura, tornando a violência mais aceitável, banalizando o sofrimento e preparando o terreno para novas formas de barbárie tecnologicamente sofisticadas.
A nova Torre de Babel
A metáfora bíblica é utilizada pelo Papa para descrever o risco de um sistema tecnológico que, prometendo unificar e elevar a humanidade a um novo patamar de conhecimento e poder, acaba por gerar confusão, alienação e divisão.
Na leitura de Leão XIV, a atual corrida pela IA replica a arrogância babilônica: constrói-se um monumento ao engenho humano que, na verdade, serve a uma minoria, fala uma língua que a maioria não compreende e ameaça esmagar a diversidade cultural, linguística e espiritual que constitui a riqueza da experiência humana.
O perigo, segundo a encíclica, não está apenas no uso malicioso da tecnologia, mas na concentração de poder simbólico e cognitivo que ela representa.
Quando poucos algoritmos, treinados por poucas empresas e calibrados por valores de mercado, passam a mediar o acesso à informação, à educação e ao entretenimento, corre-se o risco de homogeneizar o pensamento e extinguir as formas de conhecimento que não se encaixam nos padrões da máquina.
A Torre de Babel do século XXI não se ergue com tijolos, mas com dados e parâmetros que ameaçam soterrar o pluralismo sob uma aparente eficiência.

Ganho privado, prejuízo socializado
O Papa adverte que os benefícios da inteligência artificial estão sendo capturados de forma desproporcional por quem já detém capital, conhecimento técnico e influência política, enquanto os custos (precarização do trabalho, vigilância, exclusão digital, escassez de água e luz) recaem sobre a população mais vulnerável.
A encíclica recusa a narrativa de que a tecnologia inevitavelmente gera prosperidade compartilhada e aponta que, sem mecanismos de redistribuição e proteção social, a IA funcionará como uma máquina de concentração de riqueza.
O tal imperativo moral
Olah afirmou que apoiar os trabalhadores deslocados pela automação é um “imperativo moral de proporções históricas”. A declaração gera impacto não só pelo que é dito mas por quem diz, alguém que está na linha de frente da criação da tecnologia que, segundo sua própria admissão, irá acabar com muitos postos de trabalho.
O cofundador da Anthropic não prometeu que a IA criará automaticamente novos empregos para substituir os que destruir; em vez disso, reconheceu que a sociedade precisa se preparar para uma transição dolorosa e que as empresas de tecnologia têm uma responsabilidade que vai muito além de seus acionistas.
Esse reconhecimento, raro entre os líderes do setor, ecoa diretamente o apelo do Papa por uma governança que coloque a dignidade do trabalho e a proteção dos mais frágeis no centro da política tecnológica.
Quem irá vigiar os vigilantes?
O contraste com a postura de outros setores da indústria, no entanto, evidencia o tamanho do desafio, pois ao se aproximar do Vaticano a Anthropic abraçou o discurso da supervisão externa. Algumas figuras externas como David Sacks, ex-chefe de IA do governo Trump, mostrou que a resistência à regulação é ferrenha.
Ao questionar “quem irá vigiar os vigilantes”, Sacks apontou a desconfiança que se instala em uma ala poderosa do Vale do Silício e que não aceita qualquer tipo de interferência que possa frear a competitividade americana diante da China.
Essa divisão expõe o risco de que o debate sobre a governança da IA seja capturado por uma lógica geopolítica, na qual a pressa em vencer a corrida tecnológica sirva como justificativa para adiar indefinidamente as salvaguardas democráticas e éticas.
A Magnifica Humanitas deixa claro que os riscos e desafios imediatos da inteligência artificial não são fatalidades. Eles são, na visão do Papa Leão XIV, frutos de escolhas humanas e que assim podem ser modificadas outras escolhas, desde que haja coragem política, lucidez moral e uma mobilização ampla da sociedade civil. A pergunta que fica é se a humanidade conseguirá agir antes que a Torre de Babel desabe sobre todos.
IV – Reações do setor de tecnologia: entre o alarme e o silêncio estratégico
A publicação da encíclica Magnifica Humanitas não gerou uma resposta única no Vale do Silício, mas um conjunto de reações que aponta divisões internas dessa indústria.
Anthropic: cooperação estratégica
A presença de Christopher Olah, cofundador da Anthropic, no Vaticano para o lançamento foi o fato mais comentado do dia, gerando inclusive uma onda de memes nas redes sociais sobre o “Pope ter se juntado à Anthropic”. Esse gesto, porém, simboliza uma aliança estratégica. A Anthropic, que compete ferozmente com a OpenAI, consolida sua imagem pública como a empresa de IA “responsável” e voltada para a segurança, diferenciando-se no mercado. Olah foi explícito ao afirmar que nenhum laboratório de IA, incluindo o seu, pode operar apenas sob autorregulação, e pediu que mais instituições e “vozes morais que os incentivos não podem dobrar” supervisionem o setor.
A resistência velada
Uma das poucas vozes a se opor abertamente foi David Sacks, que atuou como “Chefe de IA” no governo Trump. Conhecido por defender a desregulamentação para competir com a China, ele questionou a proposta de supervisão governamental, perguntando de forma provocativa em uma rede social: “Quem irá vigiar os vigilantes?”. A crítica alinha-se com a postura do governo Trump, que trabalhou para desregulamentar o desenvolvimento da IA, o que cria um atrito geopolítico com a visão do Papa.
Silêncio dos gigantes
O que mais chamou a atenção da imprensa especializada foi o silêncio de figuras como Sam Altman (OpenAI), Elon Musk e Mark Zuckerberg (Meta). A encíclica criticou nominalmente as visões promovidas por Musk e Peter Thiel, mas nenhum deles se pronunciou.
O silêncio, no entanto, não equivale a uma indiferença, pois reportagens revelaram que executivos da Meta, Google e Amazon se reuniram com autoridades do Vaticano um mês antes da publicação da encíclica, na tentativa de fazer lobby, o que já indica preocupação nos bastidores.
Aprovação condicionada
Taylor Black, executivo da Microsoft e diretor de um instituto de IA em uma universidade católica, avaliou que a encíclica será um marco e que levará os desenvolvedores a questionarem profundamente “o que significa ser humano”. Essa reação sinaliza que, para empresas com uma estratégia de entrada mais cautelosa no mercado, como é o caso da Microsoft, as demandas do Papa podem ser vistas não como uma ameaça, mas como uma estrutura para uma adoção mais sustentável.
Guerra de narrativas
Ativistas e organizações de trabalhadores questionaram a legitimidade do Papa subir ao palco juntamente com um “bilionário da IA”, em vez de dialogar com os trabalhadores de dados e comunidades exploradas pela tecnologia. Em paralelo centrais sindicais, como a AFL-CIO, celebraram o documento, afirmando que a escolha do Papa “é um testemunho da urgência desta questão para os trabalhadores”. Este choque de narrativas mostra que a encíclica serviu como ponto de partida para uma discussão muito mais do que necessária

